Canal do Cafu reduz transumância e abandono escolar de crianças

Fonte: Jornal de Angola (06/11/2022)

Canal do Cafu reduz transumância e abandono escolar de crianças

Quinito Kanhameni

O sistema de transferência de água do rio Cunene, apartir da localidade do Cafu, às zonas de Shana, Ndombodola e Cuamato, município de Ombadja, e Namacunde, município com o mesmo nome, está a atrair para as escolas crianças antes obrigadas a seguir os pais à procura de água e pastos para os animais, em períodos de estiagem.

O projecto está a tirar do sofrimento milhares de famílias e de animais, que eram forçados a abandonar as suas localidade e escolas, em direcção a outras zonas com mínimas condições de sobrevivência. Hamalwa Pedro, residente na localidade de Otonola, disse, ao Jornal de Angola, que, com a entrada em funcionamento do canal, reduziu-se a distância antes percorrida pelos criadores de gado, à procura de condições para salvar os animais.

Acrescentou que já não se regista o abandono escolar de crianças, que eram obrigadas a acompanhar os progenitores às zonas de transumância. Seguindo Hamalwa Pedro, agora só vai à transumância quem quer e as cacimbas fazem parte do passado, já que ninguém tem necessidade de procurar água.

O criador afirmou que no passado enfrentavam vários constrangimentos nas zonas de pasto, como roubo de gado por mudjavalas (ladrões de bois), ataques de animais selvagens e morte de muitas cabeças de gado, devido à seca e à fome. “Há quem regressava para casa sem gado, porque o inimigo estava sempre à espreita”.

O ancião Kamati Kawakelende, residente na localidade de Ohandangua, nas proximidades do canal, destacou o impacto da infra-estrutura na vida da população e do gado. Referiu que reduziu a ida às zonas de transumância, por causa da abundância de água. Disse que agora a ida à transumância só vai acontecer quando faltar capim. O ancião conta que, devido à seca de 2019, perdeu 30 cabeças de gado bovino na transumância, de um total de 50 animais que levava.

Por sua vez, o adolescente José Satipamba, que desconhece a sua idade, disse que estudou apenas até a 2ª classe, há alguns anos, altura em que foi forçado a acompanhar o pai à zona de pasto da Kalonga, no município do Cuvelai, no limita da província do Cunene com a da Huila. O pequeno disse que agora que o canal resolveu o problema da escassez de água vai retomar os estudos, para ser professor ou enfermeiro.

Instaladas escolas de campo para incentivar a agricultura

Cerca de 120 famílias camponesas residentes ao longo do canal do Cafu estão organizadas, até agora, em 16 agrupamentos habitacionais (kimbos), no âmbito de um programa implementado pelo Gabinete Provincial da Agricultura e Pescas. De acordo com o director da Agricultura e Pescas, Carlos José, os camponeses associados ao longo do percurso do canal beneficiaram de tractores, sistema de rega, sementes diversas, motos-cultivadoras e enxadas, para a prática da agricultura, visando a diversificação da economia, combate à fome e redução da pobreza.

Carlos José disse que, para o êxito do projecto, foram instaladas dez escola de campo, no âmbito de um projecto desenvolvido pela Organização Não Governamental FRESAN, com vista a potenciar os camponeses com técnicas para poderem diversificar a produção, antes limitada devido à estiagem cíclica. Acrescentou que, com o canal, a comunidade vai poder dedicar-se à produção de cereais em todo o período, incluindo hortícolas e outros produtos do campo.

O objectivo das escolas de campo é ajudar os camponeses a adoptar técnicas para melhorar a actividade agrícola, desde a fase de sementeira, crescimento, amadurecimento e colheita, de forma a tirar maior proveito, para o sustento das famílias. Segundo o director da Agricultura e Pescas, a intenção é garantir segurança alimentar à população e incentivar os camponeses a novos hábitos alimentares, por via da produção de hortícolas.

Alberto Haufiku, de 67 anos, 30 dos quais como camponês, disse que o canal do Cafu constitui um ganho para o Cunene e para a população, que antes sofria por falta de água, devido à estiagem ciclíca, que provocava fome no seio das comunidades. O ancião disse que a falta de água para a prática da agricultura faz parte do passado. Aconselhou outros camponeses a se empenharem na produção, para o bem das famílias e das comunidades.